A hospitalidade para com os haitianos: quão humana é a nossa sociedade?

Data: 06/05/2014

No Brasil, nos jornais mas especialmente na mídias sociais, se deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O governador Tião Viana, do Acre, mostrou profunda sensibilidade e hospitalidade acolhendo-os a ponto de, com os meios parcos de um estado pobre, não dar conta da situação. Teve que pedir socorro ao governo central. Mas foi, de forma desavergonhada, injuriado por muitos nas redes sociais e no twitter. Aí nos damos conta de quão desumanos e sem piedade alguns podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de não desejar ser tratado desta forma caso um dia se encontrem em semelhante situação. Segundo o notável biólogo Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem a um estágio pré-humano, ao nível em que se encontram hoje os chimpanzés, que são societários mas autoritários, nem sempre praticando a mutualidade.

É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade — disse-o o filósofo Kant em seu último livro, A paz perpétua (1795) — é a primeira virtude de uma república mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.

Um dos mais belos mitos gregos se refere à hospitalidade. Dois velhinhos muito pobres, Baucis e Filemon, deram acolhida a Júpiter e a Hermes que se tinham travestido de andarilhos miseráveis para testar quanta hospitalidade ainda restava sobre a Terra. Foram repelidos por todos. Mas foram calorosamente acolhidos pelos bons velhinhos que oferecem o pouco que tinham. Quando as divindades se despiram de seus trapos e mostraram a sua glória, transformaram a choupana num esplêndido templo. Os bons velhinhos se prostraram em reverência. As divindades pediram que fizessem um pedido, que seria prontamente atendido. Como se tivessem combinado previamente, ambos disseram que queriam continuar no templo recebendo os peregrinos e que no final da vida ambos, depois de tão longo amor, pudessem morrer juntos. E foram atendidos.Filemon foi transformado num enorme carvalho e Baucis numa frondosa amoreira. Os galhos se entrelaçaram no alto e assim ficaram até os dias de hoje, como contam os passantes. E foi tirada uma lição que passou para todas as tradições: quem acolhe um pobre, hospeda o próprio Deus.

A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento.
Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos para captar a sua angústia e a sua esperança.
Ela exige outrossim uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Evitar tudo o que o fizer sentir-se um indesejado e um estranho.
Importa dialogar abertamente para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui.
Responsabilizar-se conscientemente junto com outros para que encontre um lugar onde morar e um trabalho para ganhar sua vida.
A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A nossa vem marcada lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos estes batem as portas aos imigrados ao invés de abri-las e, compassivos, compartilharem de sua dor.
É nesse espírito que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos verdadeiramente um povo da cordialidade e da acolhida aberta a todos; o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização.




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